A interminável e cansativa discussão sobre as IAs

A Interminável e Cansativa Discussão sobre o Uso da IA na escrita

Seja no YouTube, nas redes sociais e até nos grupos da família e amigos, a discussão a respeito do uso das IAs tem se tornado interminável e, até, cansativa.

A dúvida sobre a veracidade de um texto, uma mensagem, um e-mail, e é claro, um livro, formou uma divisão entre aqueles que não se importam nem um pouco com o uso das ferramentas e aqueles que se recusam a consumir qualquer conteúdo gerado por Inteligência Artificial, independente do que seja.

Cada vez mais, relatos a respeito do uso indevido das IAs têm se tornado frequentes e preocupantes. Como o relato da moça que expressa sua revolta por pagar por uma consulta, em que o médico jogava na IA todos os sintomas que ela relatava e ficava quase como em um debate com a ferramenta antes de respondê-la, enquanto ela aguardava, incrédula.

E o que dizer do recente e, diga-se de passagem, absurdo, caso do escritor Jerry Adedayo Falade, que teve seu romance policial, "Call me, I'll hide the body", leiloado e vendido pela bagatela de US$ 2 milhões, mas que, logo em seguida, teve o contrato cancelado por suspeita de uso de IA na escrita do livro.

O absurdo nesse caso fica por conta de que agentes literários leram, analisaram, aprovaram e, pasmem, não viram nada, deixaram a obra seguir, passar por um leilão dessa magnitude, para no fim, após o fechamento de um contrato milionário, passar a obra por um "detector de IA", que acusou o uso de Inteligência Artificial na criação da obra
Isso mesmo, IA sendo usada para detectar IA... eis a ironia.
E não vou nem entrar na discussão a respeito da obra Shy Girl. Todos do mundo literário estão carecas de saber desse caso absurdo, que também passou pelos olhos de editores, leitores críticos e até leitores que "amaram" a obra, e no fim, após contrato para publicação e tradução do livro para outros idiomas, mais uma vez, um "detector de IA" acabou com os sonhos da autora.

Porém, a discussão a respeito desses dois casos não é nem se eles usaram ou não a IA (que, aparentemente, o autor do primeiro caso não usou, mas a autora do segundo caso sim) e sim, como isso passou batido aos olhos de especialistas, olhos humanos, que não viram algo que, aparentemente, se tornou óbvio após a "análise minuciosa" de outra IA. 

E é aí que fica a pergunta: se os "especialistas literários" não estão vendo e estão deixando passar obras escritas pelas ferramentas, quem somos nós, na fila do pão, para virar fiscais de IA e apontar tudo como sendo obra de Inteligência Artificial?

A forma como o uso do travessão vem sendo discriminado e usado como parâmetro para "é IA" chega a ser absurda. O pessoal bate o olho em um travessão e já manda um "foi IA quem escreveu"... ah, me poupe, viu, até parece que quem inventou o travessão foi a IA.

Eu não tenho o costume de usar travessão nos meus textos ou obras, então, para mim, não é algo que me afetou diretamente. Mas muitos escritores tinham o travessão como parte de sua escrita, parte de suas identidades literárias, mas que, por conta dessa caça às bruxas, tiveram que parar de usar.

Falas como: "Tive que parar de usar travessão para não confundirem minha escrita com a escrita da IA."

Ou: "Escrevi um texto muito bom, e aí, ao invés de as pessoas elogiarem,  vieram me perguntar qual IA eu usei."

Ou essa: "Tenho medo de escrever bem e as pessoas me acusarem de usar IA. Então, sempre deixo um errinho de ortografia para tentar burlar os caçadores de IA."

Sinceramente, a meu ver, isso é triste. A IA chegou para ficar, não há dúvidas. Ela está na geladeira, na máquina de lavar, no micro-ondas, nos streamings de vídeo, na Alexa, que todo mundo ama ter em casa, nos carros, nas TVs, nos computadores, nos consoles de videogame, nos smartphones, na cafeteira... enfim, em TUDO

E, a não ser que a pessoa se mude para uma caverna nas montanhas e vire eremita, ela vai ter que conviver com as IAs onde quer que vá. Não adianta protestar e isso não vai mudar.

Mas... eu repito, MAS... dá para entender a frustração de algumas pessoas a respeito do uso indiscriminado das ferramentas, principalmente no meio literário, que vai muito além dos casos que mencionei acima. 

E como isso afeta os escritores/autores independentes que usam as IAs como FERRAMENTA DE APOIO, principalmente para criar suas capas?

Como todos já sabem, a Amazon está LOTADA, ABARROTADA, INFESTADA de livros escritos por IA. Autores na casa dos vinte e cinco anos com mais de 260 livros publicados. Uma carreira inteira que levaria anos, criada em dias ou semanas. 

Livros que muitos autores levam meses, até anos, para escrever, estão sendo deixados para trás, pisoteados por livrinhos de quinta categoria, que esbanjam clichês e "mais do mesmo", escritos em poucas horas com prompts fracos e revisão inexistente.

Como autora independente, isso me revolta também. Chega a ser desanimador ver meus seis livros lutarem por uma posição no ranking da plataforma, ficando tão longe dos leitores, que é quase como se eu pudesse ouvir os ecos do vazio onde eles estão, lutando por um lugar ao sol.

É triste, é desanimador... é revoltante. E sim, entendo o sentimento de revolta que corrói os leitores que também se veem enganados e se afogando nesse mar de IA que virou a Amazon.

Mas, vamos tentar não generalizar, pessoal. Eu sei que uma capa criada por IA nem sempre é atrativa aos olhos, mas isso não significa que a história tenha sido feita por IA. Por trás de muitas histórias com capa de IA, há um autor(a), há uma história bem escrita que levou meses, ou até anos, para nascer, para chegar à Amazon.

Por trás dessas capas, há um autor(a) que atualiza a página de leituras do KDP da Amazon todos os dias, na esperança de ver seus livros sendo lidos. E fica com um sorriso no rosto ao ver que alguém está lendo, ou que comprou e baixou o e-book. Tentando controlar aquele friozinho na barriga, aguardando uma avaliação positiva

Eu entendo que há muitos designers por aí, que oferecem um trabalho incrível, mas nem todo mundo tem condições de contratar esses profissionais, e as IAs acabaram tornando o sonho da publicação possível para esses autores. Eu mesma já usei IA nas minhas capas, e não tenho problema nenhum em falar isso... Pois a escritora sou eu

Então, vamos pegar leve com a caça às bruxas. Tentar entender o que há por trás de cada obra. Se for IA, siga em frente, se não for, apoie esse autor(a), leia a obra, deixe uma avaliação
Se gostou da história, divulgue, compartilhe, deixe uma resenha para o autor(a). 

Você pode não ser capaz de ver, mas acredite quando eu digo que não há nada melhor para um autor do que receber elogios, resenhas e avaliações positivas sobre sua obra

O sorriso se alarga e se demora a ir embora, e a sensação de calor no coração também persiste, alimentando a vontade de continuar escrevendo... 
Continuar entregando ao mundo as histórias malucas que até então só existiam na cabeça daqueles que perdiam o sono imaginando!

Se você leu até aqui, muito obrigada!

E sinta-se à vontade para deixar nos comentários sua opinião a respeito desse tema. Sei que é um assunto manjado e que muitas pessoas não aguentam mais ouvir, mas, enquanto houverem os caçadores de IA, apontando até a vírgula antes do nome, como sendo obra do Chatgpt, a discussão irá persistir.

Muito obrigada pela Visita!

Aline N.
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